
H. T. Wright, C. Allibert, A. Argan, J. Argan, C. Chanudet e P. Vérin: Arqueológos
26 de abril de 2026Maomé, o profeta fundador do Islã, emergiu no século VII em Meca como uma figura transformadora. Sua mensagem de monoteísmo puro, justiça social e igualdade desafiou as estruturas politeístas e tribais da Arábia. No entanto, a perseguição feroz pelos líderes dos Quraysh forçou seus primeiros seguidores — os companheiros (sahaba) — a buscar segurança além das fronteiras árabes. Por volta de 615 d.C., um grupo significativo migrou para o Reino de Axum, um poderoso império cristão na África Oriental, atual Etiópia e Eritreia. Esse episódio, conhecido como a Primeira Hijra (ou Migração para a Abissínia), marcou não apenas um momento de sobrevivência para o Islã nascente, mas também destacou o papel da África como berço de tolerância religiosa e elo entre civilizações.
Esse refúgio na corte do Negus (rei) de Axum, um monarca cristão justo, ilustra como o continente africano, frequentemente subestimado na historiografia global, influenciou eventos que moldaram religiões mundiais. Vamos explorar essa história fascinante, conectando-a ao legado africano mais amplo.
O Contexto da Perseguição em Meca e a Decisão de Migrar
No início da pregação de Maomé, por volta de 610-613 d.C., seus seguidores enfrentaram boicotes econômicos, torturas e ameaças de morte. Os Quraysh viam a mensagem islâmica como uma ameaça ao seu controle comercial e religioso sobre a Caaba. Maomé, ciente da vulnerabilidade de seus companheiros, recomendou: “Se pudésseis ir para a Abissínia, seria melhor para vós, pois lá reina um rei que não tolera injustiça, e é uma terra amiga”.
Essa sugestão não foi aleatória. A Abissínia (nome árabe para a região de Axum) era conhecida por sua justiça e por ser um reino cristão próspero. A primeira migração, em 613-615 d.C., envolveu cerca de 15-20 pessoas, incluindo Uthman ibn Affan (futuro terceiro califa) e sua esposa Ruqayyah (filha de Maomé). Uma segunda onda, maior, chegou a quase 100 muçulmanos.
“Foi a primeira hijra no Islã — não para Medina, mas para a África, onde o Islã pôde ser praticado livremente pela primeira vez.”
Essa migração cruzou o Mar Vermelho, uma rota comercial antiga que ligava a Arábia à África Oriental.
O Reino de Axum: Um Império Africano Poderoso e Cristão
O Reino de Axum não era um reino periférico; era uma superpotência africana que rivalizava com Roma, Pérsia e Índia. Surgido por volta do século I d.C., Axum dominava o comércio no Mar Vermelho e Oceano Índico, exportando ouro, marfim, incenso e escravos. Sua capital, Axum, ostentava obeliscos gigantescos (estelas), palácios e igrejas, muitos ainda visíveis como Patrimônio da UNESCO.
No século IV, o rei Ezana adotou o cristianismo, tornando Axum uma das primeiras nações cristãs do mundo — antes mesmo de muitos reinos europeus. Essa conversão, influenciada por missionários como Frumêncio, integrou elementos locais com a fé cristã, resultando em uma tradição única que perdura na Igreja Ortodoxa Etíope.
O rei que recebeu os muçulmanos era Ashama ibn Abjar (ou Armah), conhecido como Negus (ou Al-Najashi nas fontes islâmicas). Ele governava um reino tolerante, onde cristãos conviviam com judeus e pagãos.
Para mais sobre esse império africano que conectou continentes, confira o artigo sobre o reino de Axum o elo perdido e o reino de Axum comercio e cristianismo.
A Chegada à Corte de Axum e o Encontro com o Negus
Os muçulmanos chegaram exaustos, mas foram recebidos com hospitalidade. Os Quraysh, irritados, enviaram emissários com presentes para exigir sua extradição. O Negus convocou uma audiência na corte.
Ja’far ibn Abi Talib, primo de Maomé e líder dos refugiados, defendeu-os eloquentemente. Ele explicou os princípios islâmicos, enfatizando a crença em um Deus único, a proibição de ídolos e o respeito a Jesus e Maria como figuras honradas (sem divindade). Ja’far recitou versos da Surata Maryam, tocando o coração do rei cristão.
O Negus, comovido, recusou a extradição: “Entre vós e eles há um mar; ide em paz”. Alguns relatos indicam que o rei simpatizou tanto que se converteu secretamente ao Islã, embora isso seja debatido.
Esse momento simboliza tolerância inter-religiosa: um rei cristão africano protegeu muçulmanos perseguidos, criando um precedente histórico.
Impacto Histórico e Legado na África
A migração para Axum permitiu que o Islã sobrevivesse e se fortalecesse. Muitos refugiados permaneceram anos, retornando apenas em 628 d.C. ou mais tarde. Axum tornou-se o primeiro lugar fora da Arábia onde o Islã foi praticado abertamente, e a Mesquita de Negash (em homenagem ao rei) é considerada uma das mais antigas da África.
Essa conexão destaca o papel da África no Islã inicial. O continente, berço da humanidade, continuou a moldar religiões globais. Axum, com seu comércio e cristianismo, serviu como ponte cultural.
Explore mais sobre a civilização axumita e sua importância e cristianismo no império etiope.
Conexões com a História Africana Mais Ampla
A África sempre foi um espaço de migrações, tolerância e inovação. Desde os primeiros humanos na África e os primeiros passos da humanidade, passando pela evolução humana como a África moldou, até civilizações antigas como o berço da humanidade e de civilizações.
Axum se insere nessa tradição, ao lado de reinos antigos africanos para conhecer e a África que transformou o mundo. O Islã se espalhou pela África via comércio, como em o comércio e a difusão do Isla no oeste e Isla transformou a África na Idade Média.
Perguntas Frequentes
Quem foi o rei de Axum que protegeu os muçulmanos?
Ashama ibn Abjar, conhecido como Negus ou Al-Najashi, um monarca cristão justo.
Quantos muçulmanos migraram para Axum?
Primeira onda: cerca de 15-20; segunda: até 100, incluindo familiares de Maomé.
Por que Maomé escolheu Axum?
Era um reino cristão tolerante, com um rei que não permitia injustiça, acessível via Mar Vermelho.
Axum adotou o cristianismo antes ou depois desse evento?
Antes, no século IV com o rei Ezana.
Qual o legado dessa migração?
Primeiro refúgio islâmico fora da Arábia, exemplo de tolerância inter-religiosa e introdução precoce do Islã na África.
Como isso se conecta à história africana?
Reforça o papel da África como centro de civilizações, migrações e interações religiosas, desde a pré-história africana na sociedade até impérios medievais.
Para aprofundar em mais civilizações africanas, leia sobre as primeiras civilizações da África origens e reino de Kush influência na antiguidade.
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